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>A Janela de Godard: Demônio das Onze Horas

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Falar de Godard é complicado. Muita gente torce o nariz, insiste que é demasiado chato, arrogante, pretensioso. Talvez seja isso mesmo ou algo aproximado. Mas isso não importa, porque chato não implica que seja ruim, legal não significa que seja bom. Depende do ponto de vista.
Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou) é um romance policial nem tão romântico assim. Não parece nem de longe com os romances contemporâneos famosos. Nem tão pouco quanto aos policiais.
Sem grandes intrigas, sensacionalismos ou pieguices. Diria que é complicado pela sua descomplicação. O que normalmente estamos habituados a ver na tela são personagens “super-heróis”, bastante complexos, recheados de conflitos. Em geral, é claro. Não são poucas as produções que se distanciam dessa estética “Liga da Justiça” (ou Liga do Amor, como preferirem) como também não são poucas as que voltam sua luz cinematográfica para isso. E isso nada tem a ver com a possibilidade real de o personagem existir no mundo tangível, vulgo “fora da tela”. Tem a ver com jogar informações – que de início seriam “incríveis” para os espectadores, mas que no fundo não conseguem se justificar – nos personagens e no próprio filme e esquecer a essência, o modo como as coisas são apresentadas.
Pode-se pensar que Godard “joga” informações, mas não vejo dessa forma. Mesmo os momentos “desconexos” não são construídos nem desconstruídos com o simples depósito de informações. Não se esbarra em justificativas rasas porque nem tudo precisa ser justificado. Neste filme em particular, sinto os personagens passearem por seus caminhos e descaminhos de forma leve, como se fossem parte de uma brisa confusa. Sem muita perfeição, seguimos a estrada com Marianne e Ferdinand, um com mais parafusos fora do lugar que o outro, numa viagem agradabilíssima.
O filme é recheado de referências, de fragmentos cinematográficos para falar de outros assuntos ou do próprio cinema. É aqui onde a marca de Godard aparece, nessa brincadeira com a metalinguagem, onde as dúvidas são provocadas sem necessariamente levar a respostas. O capitalismo, assim como o modo de vida da sociedade da época – que estão intimamente interligados – são questionados de forma mais sutil do que em outras produções desse mesmo realizador, mas continuam ali. Um dos meus momentos preferidos do longa é a encenação de uma pequena peça sobre a Guerra do Vietnã para um grupo de americanos. É uma passagem sarcasticamente deliciosa, muito bem executada, muito bem articulada. Divertidíssima de ser vista, principalmente quando percebemos o teor de crítica introduzido numa representação da guerra para os americanos.
Eu não poderia separar-me das minhas impressões para externar expressões do filme. Digo, por mais que eu tente tornar as análises impessoais, sempre haverá resquícios passionais. E para os filmes do Godard dificilmente funcionaria de outra forma. Demônio das onze horas é um refúgio para os parafusos soltos… Uma deliciosa película repleta de belas interpretações, de descaminhos que não levam a lugar algum.
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>A Janela de Godard: Nossa Música

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  “O que vemos diante de nós é uma história sem pensamento, como se herdada de uma vontade impossível. Mais do que nunca, sem dúvida, estamos diante do nada.” 
  O inferno, o purgatório, o paraíso. O som, o texto, a imagem. A ficção, a realidade, o imaginário. A política, a poesia, o ser humano. O pensamento, as cores, as luzes. A certeza, a incerteza, a ilusão. O sofrimento, a morte, a vida. A música, o cinema. O ser humano, a música. Nossas contradições, nossa arte. Nossa Música.
  Nossa Música (Notre Musique, 2004) é um filme-ensaio, que tal qual como a Divina Comédia de Dante, estrutura-se em três reinos: Inferno, purgatório e paraíso. Nós, espectadores, somos conduzidos por vários momentos, várias linguagens, vários pensamentos. Somos envolvidos pela multiplicidade de perspectivas através da Janela de Godard.
  
  No inferno, guerras, sofrimento, dor, violência, morte. As imagens são pontuadas por belíssimas peças de piano, alguns segundos de silêncio e umas poucas palavras. O brilho das cores, mesmo quando a fotografia é em P&B, parece destacar os sentimentos de dor. Em determinados momentos, o estrondo do som do piano parece lembrar o sofrimento pungente. A guerra, a destruição, a agonia. “Perdoa nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido. Sim, como nós perdoamos, perdoa-nos.” A questão do perdão é apresentada, tocando num ponto delicado: a vítima é quem pede perdão. Quem está a sofrer, deve pedir perdão, mesmo que nada tenha a ver com a culpa. A culpa, o arrependimento e o perdão nem sempre estão juntos e isso não é difícil de visualizar onde vivemos, embora nos digam justamente o contrário.
  O purgatório é o momento mais intricado da película. Os personagens não são entrelaçados por um fio condutor, o foco passeia por uma vastidão de perspectivas. O cenário é a Sarajevo atual, palco das guerras mundiais e da guerrilha (92-95). Uma cidade marcada. “Quando tudo termina, nada mais é como antes. A violência… A violência deixa marcas profundas.” O nosso purgatório é onde vivemos, um lugar de feridas abertas… “Matar um homem para defender uma ideia não é defender uma ideia. É matar um homem.”
  As questões que envolvem o conflito Israel x Palestina são introduzidas por Olga, uma jornalista francesa e judia de origem russa. “Já um amigo em Haifa, diz que não sonha com o inimigo, mas com ele mesmo. Não com Israel, mas com a Palestina.” Olga entrevista o embaixador francês e um poeta palestino. Num ponto, a ideia de que os escritores não sabem o que falam, que quem age não tem tempo para contar, quem conta é apenas observador. “Homero nada sabia sobre batalhas, massacres, triunfos, glória. Ele era cego e estava entediado. Precisava se contentar em contar o que os outros fazem.” No outro ponto, o poeta palestino, diz que não há mais espaço para Homero, que os troianos necessitariam de um poeta para contar a sua história. Não se pode contar a história de Tróia pela boca de um grego e ele tenta ser o poeta dos troianos, o poeta dos vencidos. “Pode um povo ser forte sem escrever poesia?”
   
  “Se nossa época alcançou uma interminável força de destruição, é preciso fazer uma revolução que crie uma indeterminável força de criação, que fortaleça as lembranças, que delineie os sonhos, que materialize as imagens”.
  Godard, interpretando ele mesmo, ministra uma palestra sobre texto e imagem. Introduz-nos os conceitos de campo e contra campo. Como exemplo, mostra duas imagens de um filme de Hawks e afirma que se olharmos bem para as fotografias, veremos que, na verdade, se trata da mesma imagem repetida. “Isso porque o diretor é incapaz de ver a diferença entre um homem e uma mulher.” Imaginação, visão. Ficção, realidade. Certeza, incerteza. “A verdade tem duas faces”, constante que aparece algumas vezes ao longo da película. Os israelitas entram na água rumo à Terra Prometida, os palestinos entram na água rumo ao afogamento. Campo e contra campo. Um se torna ficção, o outro documentário. A mesma imagem. “O princípio do cinema: ir até a luz e apontá-la para a nossa noite. Nossa música.”
  A reconstrução da ponte de Mostan, simbolizando a passagem da culpa pelo perdão. “Duas faces e uma verdade: a ponte.”
 “É como uma imagem que vem de longe. São duas, lado a lado. Ao lado dela, estou eu. Ela nunca vi. Mas me reconheço.” Nesse momento, a imagem é desfocada. Olga se aproxima e o foco retorna quando chega perto. Ela olha em direção à câmera como se estivesse a encarar uma pessoa. O quadro que vemos a seguir, mostra Olga de costas, como se quem ela estivesse a olhar fosse ela mesma. Indescritível.
  Há vários outros momentos que gostaria de destacar, devido à já citada multiplicidade de olhares que visualizamos no decorrer da película. Mas para não estender demasiadamente o texto, vamos à última parte: o Paraíso. Neste reino, vemos Olga num lugar bonito, predominantemente verde, que supostamente exala paz. Não fica muito claro – o filme não deixa as coisas muito óbvias no geral –, mas o fato do lugar estar “protegido” por fuzileiros da marinha norte-americana me parece uma sátira à hegemonia dos EUA sobre o resto do mundo…
  Nossa Música é uma reflexão. Reflexão sobre o mundo, sobre o ser humano e as questões que os entrelaçam. E como toda boa reflexão, não nos dá respostas óbvias, mas acende questionamentos. Inferno, Purgatório e Paraíso são extensões da nossa realidade. Só não sabemos muito bem onde começam esses reinos supostamente imaginários e termina o nosso mundo e vice-e-versa. Não há uma linha divisória: estamos no Paraíso, no Purgatório e no Inferno. Tanto a visão quanto a imaginação fazem parte do ser humano. Feche os olhos, olhe lá… Godard nos traz o pensamento em forma de arte. “Pode um povo ser forte sem escrever poesia?” Como sobreviveria um povo sem arte?

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