Incomunicabilidade

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De que progresso nos falam? De que progresso falamos?

Esse progresso de linha reta, onde tudo cresce, avança, evolui, desenvolve,  já não nos parece tão brilhante aos olhos. Que tipo de progresso é esse? Por que já não mais nos apegamos às promessas do progredir vindouro? Em algum tempo, acreditamos em verdade nesse tal progresso?

O mundo respira o desejo de viver em contraponto à cordial conveniência de sobreviver. Se há um mundo velho e impotente, há outro que pulsa, que potencializa, que grita. Há um mundo que acontece por dentro e para além deste mundo fraturado. É um mundo que se indigna, que começa a tomar as ruas, a transformar os espaços, a ouvir, a falar, a insurgir, a subverter as lógicas apáticas de sistemas doentes, a articular as lutas, a fazer ressurgir o devir revolucionário.

Não cessam de acontecer, de crescer, de multiplicar, de partilhar, de fervilhar lutas mundo afora. A urgência dos rostos, mentes e corações pintam multidões cheias de cores, paixões, alegrias e revoltas. Sem dúvida, há algo acontecendo.

Para onde está indo o progresso do desenvolvimento em meio a tudo isso? O progredir tecnológico, a esperança de nos tornarmos “desenvolvidos”, o sucesso e a realização financeira já não nos motivam tanto assim? É possível falar que tudo isso está a declinar?

A verdade é que o tal progresso prometido é um tanto anêmico. É em nome dele que crimes ambientais e sociais como Belo Monte se apresentam. É em nome dele que milhares de pessoas são removidas de seus lares, das ruas e dos mercados para “dar espaço” e tornar possíveis megaeventos, obras faraônicas e especulações imobiliárias. É em nome dele que as cidades cada vez mais se tornam menos dos cidadãos e mais dos carros, shoppings e prédios. Só pode ser em nome dele que os governos – não só brasileiros – cortam gastos em áreas essenciais (saúde, educação, segurança…), mas não hesitam investir em projetos que não se fazem tão necessários às populações.

Estamos avançando para onde? O quê isso significa para nós? O que queremos afinal? Essas perguntas só podem ser respondidas se olharmos para as acampadas, para as marchas, para as manifestações, para as assembléias, para as greves, para os debates, para as lutas: a lógica do “avanço em linha reta” já não interessa, o que queremos é viver, o que importa agora é como queremos viver.

E é a partir desse “como queremos viver” que se articulam os esforços de criação e recriação, de transformação do comum, do livre, do pungente, do trabalho num sentido outro.

No fundo, não queremos esse tal progresso. Queremos a metamorfose…

Nota: Quero deixar bem claro que esse progresso de que falo nada tem a ver com o progressismo. O “progresso” do texto é o discurso que se apropria do termo “progresso” para tomá-lo como “luz para o desenvolvimento”…

>"Computadores fazem Arte, Artistas fazem Dinheiro"

>Chico Science cantava lá pelos idos de 94, uma frase que materializa uma grande parte do produto da indústria musical: “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. Science se referia à tendência mercadológica de pôr a renda na frente da produção artística, o que não é difícil de observar no mainstream.  Observando os novos caminhos que o MinC vem seguindo, esta frase surgiu de imediato em minha cabeça. De que Cultura se refere o Ministério? Da Cultura de Mercado?

Retirar a licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura significa uma ruptura no processo de viabilização do conhecimento livre que vinha se estendendo nos últimos anos. Não é apenas uma troca de licenças, é certamente uma mudança de postura. Uma renúncia ao apoio da cultura digital coloca o novo MinC em qual direção?
Ora, se o Ministério da Cultura é a favor da democratização da cultura, deveria se posicionar para que as produções culturais e informações sobre a cultura estivessem disponíveis a todos. Isso significa a retirada e não a imposição de barreiras. Se algo é de domínio público, a difusão deve acontecer. E, como um órgão público – que deve(ria) ser para o público –, o MinC deveria viabilizar essa difusão, para que se possa alcançar um maior número de pessoas. Porém, a nova licença apresenta um MinC complicador da difusão, já que “permite a reprodução desde que creditado”, mas não se refere à publicação. Licença, no mínimo, confusa.
Afastando-se da difusão da Cultura Digital, o novo MinC se aproxima de quem? Da velha máquina do Copyright e da “lógica” do ECAD ou de uma nova alternativa para democratizar a cultura? Se há essa nova alternativa, ela não foi mostrada até o momento. O Copyright não tem mais espaço no mundo do conhecimento livre, já que ao invés de beneficiar o autor, alimenta a velha lógica do mercado. A ministra Ana de Hollanda já anunciou ser contrária a “mudanças radicais” numa possível reforma da Lei de Direitos Autorais. Lei essa, demasiado restritiva, que precisa de uma reformulação em verdade.

Os rumos que o MinC vem seguindo engendram um retrocesso e um distanciamento da democratização, da difusão do conhecimento livre. Infelizmente, é isso que se vê nos últimos tempos.

“Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. É lamentável que essa frase ainda continue atual.

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