Incomunicabilidade

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Palavra de Ordem

Estive escrevendo a um certo rapaz dia desses. Falávamos de tudo: cinema, música boa, cinema, amigos, farra, tattoos, piercings, cinema, cem anos de solidão e como odiamos romances açucarados. Escrevê-lo é um ofício que consome mais do que algumas horas de sono. Escrevê-lo com o que houver à mão é a palavra de ordem.

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Síntese

A poesia atravessa minh’alma, machuca meu corpo, toma-o para si.

Os versos escorrem das minhas mãos atadas,

Você é o verso que não cabe mais em mim.

Amálgama

Houve um tempo em que eu me convenci de que precisava estar rodeada de pessoas que amassem a vida tanto quanto eu. Eu precisava encher meu espírito de um vitalismo quase que hormonal, levemente febril e essencialmente apaixonado. Eu precisava desprender-me das amarras de julgamentos morais, de anemia de afetos, de economia de vidas, de desamores pré-prontos e de carreiras tediosas. Eu precisava viver. Eu precisava subir à superfície. Eu precisava respirar.

É claro que a tentativa foi um quase completo fracasso. A vida real agarrou-me pelo pescoço e levou-me de volta aos submundos. Fez-me ainda pior: arrastou-me para outros submundos, obrigou-me a frequentá-los e ordenou que eu cumprisse todos os compromissos requeridos pela Grande Máquina, mesmo que eles se traduzissem em atividades meramente formais e tediosas.

Mas as experiências não me foram de todo ruins, pelo contrário. Descobri que há também vida nos submundos. Mais que isso: aprendi que a semente da vida germinava nesses lugares. E por dentro deles, descendo aos seus becos escuros e ruas tortuosas, fui absorvendo todos os tipos de materiais humanos, fotografando todos os cotidianos que encontrava pela frente, engolindo muitas dores e apunhalando algumas injustiças. Sem querer chegar ao “topo”, lutei para não subir demais na escada que leva ao Grande Objetivo. Mas acabei subindo alguns degraus, por pura convenção. Então, descobri que eu não estava imune ao Grande Sistema: sou eu também um fantoche, mesmo que com muitos desvios da normalidade.

Sou eu também um fantoche: como isso soa estranho aos meus ouvidos. Sou eu também um fantoche? É claro, mais dia menos dia, eu teria de ser. Ou fingir. Fico com a segunda opção.

Com uma certa dose de crueldade e um tanto maior de generosidade, sigo costurando algumas feridas do mundo, encenando o necessário para sobreviver e amando demasiadamente para viver. Eu não preciso subir de novo à superfície, travestir-me de eremita e respirar do ar puro do topo da montanha. Eu posso amar a vida aqui embaixo. Eu preciso respirar desse ar e engasgar-me com as impurezas de uma existência desgastada. Eu devo colorir de vida esse abismo.

Dessa vez, passei muito tempo longe do blogue. Não é que a solidão tenha acabado, é que senti a necessidade de distanciar-me um pouco do meu pupilo. A vida não deixou brechas e estendeu o hiato. Pensei em abandoná-lo definitivamente. Mudei de ideia várias vezes.

A vivência trouxe alguns elementos novos e pôs para dormir muitos outros.

 

É tudo nosso e a vida não acabou

De ventos outros…

Contra a correnteza apocalíptica deste lado do mundo, que não cansava de anunciar que o fim dos tempos viria do terror do obscuro desocidente, o Oriente (re)ensina o mundo a respirar novamente, a vivê-lo. Não, não estamos diante do apocalipse. Mas um mundo está fechando os olhos enquanto outro começa a abri-los. Os ventos da primavera jasmínica estão a soprar para todos os lados.

Sopram por todos os lados, por aqui também.

Aqui no Brasil, nessa terra de muitas gentes, nesses campos plurais desbrasileirados, imperfeitos e inacabados, que subvertem o estereotipado e ilusório Made in Brazil, os espaços sociais e políticos começam a ser ressignificados.Voltamos às ruas.

Por que voltamos às ruas?

Voltamos às ruas, porque intoxicados de revolta e desejo, (re)conquistamos o sabor de lutar. Em todos os tempos, resistimos. Agora, mais uma vez, é hora de agarramos o momento e resistir mais e melhor.

Voltamos às ruas, porque a falácia neoliberal da “liberdade para ‘crescer na vida’” não nos ilude. Não queremos estar no topo, queremos estar no mundo. Por isso tomamos as ruas, por isso marchamos, por isso fazemos greves. Em contraponto à representatividade anêmica do sistema político, potencializamos a participação política direta, a construção de uma política viva, o desejo de um trabalho que não surja natimorto.

Por que marchamos?                   

Marchamos porque não temos de ter vergonha de ser mulher, gay, bombeiro, índio, professor. Marchamos porque queremos ser, porque queremos o direito de ser.

Marchamos pela Liberdade, por um Estado Livre e Laico. Marchamos porque não queremos esse desenvolvimentismo travestido de progresso. Marchamos porque não queremos rifar nossas florestas, nossas gentes, nossos rios, nossas cidades.

Marchamos porque não temos medo de dizer que Belo Monte é um crime.

Marchamos porque somos brasileiros, não caricaturas abrasileiradas. Não somos anjos nem demônios, nem ingênuos nem maquiavélicos. Não precisamos ser domados, não precisamos ser “civilizados”. Somos um Brasil que acontece. Somos Macunaíma: nem herói nem vilão, brasileiro porque desbrasileiro.

Marchamos pela alegria das multidões. Marchamos porque lutamos.

Por que fazemos greves?                 

Fazemos greves porque, cansados de construir nossa própria indignidade com suor e sangue, temos de pressionar a Grande Máquina por algum lado. Fazemos greves porque não nos contentamos com migalhas, queremos, em verdade, transformar nossos mundos.

E não venham fazer nosso cadáver dizendo que somos baderneiros ou preguiçosos. Essa história da carochinha não mais engana.

Se paralisamos, é porque queremos que as coisas funcionem, mas não de qualquer jeito. Se paralisamos, é porque queremos poder voltar a trabalhar de forma digna.

Fazemos greves porque, por dentro da greve, tecemos redes políticas vivas, de participação, de debate, de vivência. Fazemos greves porque precisamos lutar pela Educação, pela Saúde, pelo Transporte, pelas gentes: pelo operário das obras faraônicas, que transpira para construir um Brasil e é explorado pelas empreiteira$; pelos trabalhadores dos transportes, que além de sofrerem com seus salários baixos, trabalham com medo da violência; pelos profissionais da saúde que, não raro, trabalham sem as mínimas condições (faltam equipamentos, estrutura, …); pelos professores, que lutam todos os dias para dar significado à palavra Educação, apesar das feridas abertas, dos salários de fome, das escolas precárias…

Fazemos greves porque resistimos. E resistimos, a cada amanhecer, mais e melhor.

Fazemos greves porque se construímos mundos, não podemos reinventá-los?

Os Sonhadores

Não nos satisfazemos com os planos simplistas de existência que cortam a potência da vida. Queremos sonhar e fazer sonhar. Queremos que o existir tome um outro significado, se encha de vida, se desenhe à várias cores.

Nosso sonho não é perfeito, distante, irrealizável. Nutrimos o desejo de torná-lo, e o fazemos a cada dia, sem medo de errar: lutando. Queremos o sonho vivo.

É tudo nosso e a vida não acabou.

De que progresso nos falam? De que progresso falamos?

Esse progresso de linha reta, onde tudo cresce, avança, evolui, desenvolve,  já não nos parece tão brilhante aos olhos. Que tipo de progresso é esse? Por que já não mais nos apegamos às promessas do progredir vindouro? Em algum tempo, acreditamos em verdade nesse tal progresso?

O mundo respira o desejo de viver em contraponto à cordial conveniência de sobreviver. Se há um mundo velho e impotente, há outro que pulsa, que potencializa, que grita. Há um mundo que acontece por dentro e para além deste mundo fraturado. É um mundo que se indigna, que começa a tomar as ruas, a transformar os espaços, a ouvir, a falar, a insurgir, a subverter as lógicas apáticas de sistemas doentes, a articular as lutas, a fazer ressurgir o devir revolucionário.

Não cessam de acontecer, de crescer, de multiplicar, de partilhar, de fervilhar lutas mundo afora. A urgência dos rostos, mentes e corações pintam multidões cheias de cores, paixões, alegrias e revoltas. Sem dúvida, há algo acontecendo.

Para onde está indo o progresso do desenvolvimento em meio a tudo isso? O progredir tecnológico, a esperança de nos tornarmos “desenvolvidos”, o sucesso e a realização financeira já não nos motivam tanto assim? É possível falar que tudo isso está a declinar?

A verdade é que o tal progresso prometido é um tanto anêmico. É em nome dele que crimes ambientais e sociais como Belo Monte se apresentam. É em nome dele que milhares de pessoas são removidas de seus lares, das ruas e dos mercados para “dar espaço” e tornar possíveis megaeventos, obras faraônicas e especulações imobiliárias. É em nome dele que as cidades cada vez mais se tornam menos dos cidadãos e mais dos carros, shoppings e prédios. Só pode ser em nome dele que os governos – não só brasileiros – cortam gastos em áreas essenciais (saúde, educação, segurança…), mas não hesitam investir em projetos que não se fazem tão necessários às populações.

Estamos avançando para onde? O quê isso significa para nós? O que queremos afinal? Essas perguntas só podem ser respondidas se olharmos para as acampadas, para as marchas, para as manifestações, para as assembléias, para as greves, para os debates, para as lutas: a lógica do “avanço em linha reta” já não interessa, o que queremos é viver, o que importa agora é como queremos viver.

E é a partir desse “como queremos viver” que se articulam os esforços de criação e recriação, de transformação do comum, do livre, do pungente, do trabalho num sentido outro.

No fundo, não queremos esse tal progresso. Queremos a metamorfose…

Nota: Quero deixar bem claro que esse progresso de que falo nada tem a ver com o progressismo. O “progresso” do texto é o discurso que se apropria do termo “progresso” para tomá-lo como “luz para o desenvolvimento”…

Ser artista = fazer arte?

Créditos da imagem: Fractal Ontology

Tout art est une révolte contre le destin de l’Homme” (Toda arte é uma revolta contra o destino do homem) André Malraux

Como é possível um homem que não pode criar, realizar, fazer arte, ser artista?                  

É no mínimo cômico – para não dizer lamentável – que o termo artista tenha ganhado uma significação, de modo geral, tão rasa. Ao invés de ser artista aquele que faz arte, é artista aquele transformado em estrela, ícone pop. Ser uma estrela pop não significa necessariamente fazer arte, significa ser uma figura que, por algum motivo, ganhou destaque no mundo das estrelas, no universo dos famosos.

Produz-se então, toda uma “aristocracia artística”, que arranca suspiros, choros e todo tipo de atitudes ridículas dos fãs, além de fornecerem um potencial significativo de material inútil para nutrir as “novidades” de certas mídias. E então se acaba vendo aquela nova-velha relação de idolatria: o pastor e seu rebanho, o escolhido e os condenados, o artista e os não-artistas, o ídolo e os fanáticos.

Há um entorpecimento arraigado nos que acreditam piamente nos ídolos: impotentes, não podem fazer coisa alguma senão tentar reproduzir , já que são incapazes de produzir, de criar. Que é o homem senão um ser criador? Se não o é, se o potencial de criação encontra-se nas mãos de “eleitos”, para que diabos ser humano então? Digo, qual a diferença entre um homem passivo, que não age, que não cria, que só escuta o que os outros dizem, que não pensa por si, e um animal domesticado?

Podem me chamar de purista – o que certamente não sou -, mas quando a arte não é veículo de expressão, quando é apenas pretexto para alguma outra coisa – consumir ou vender cervejas, por exemplo -, se assemelha com algum tipo de anemia. E isso não é um purismo estético nem um primor pela “arte pela arte”. Pelo contrário, é um desejo de uma arte pungente, que seja invenção, criação e contemplação de mundos, fruto da poesia que inflama os corações das gentes.

Seriam melhores esses artistas-estrelas do que os artistas das ruas, dos becos, das vanguardas, dos mundos, dos submundos, das esquinas, dos guetos, das favelas, das praças, das rodas, das vilas, dos subúrbios, das oficinas de cultura, dos muros, das roças, das praias, dos corações e espíritos que transbordam de vontade? Haveria escolhidos, indivíduos destinados desde o nascimento a governar, guiar e conduzir os pobres-diabos que não nasceram sob o signo da bem-aventurança e que, em conseqüência, não detém o poder? Quantas vozes serão ainda serão suprimidas enquanto homens ainda privarem-se de levantar suas vozes, seus pensamentos e seus desejos porque não se julgam capazes?

Acreditar em uns poucos é fechar os olhos para toda a pluralidade do mundo. Não acredito em ídolos, não acredito em representatividade. Dei-me o benefício da dúvida, a força da crítica e o poder da desconfiança. Verdades imutáveis que caem do céu não me satisfazem. Arte é expressão. Artistas somos todos nós, os que criam.

Que a arte não seja algo acabado. Que seja jovem*, que seja voz, que seja revolta, que seja LIBERDADE.

Que seja Eterno devir artístico.

Pós-escrito: O texto faz referência ao “mainstream”, que quer queiramos ou não, quer busquemos mídias e artistas alternativos ou nos apeguemos “às raízes”, ainda faz desfilar em nossa sociedade as inutilidades de “artistas” pré-fabricados, sejam eles de plástico ou de ouro.

*A palavra Jovem está aqui empregada não num sentido biológico, mas num sentido artístico, numa vontade e urgência de arte. 

“A cultura não terminava para nós, na produção e consumo de livros, quadros, sinfonias, filmes e obras de teatro. Nem começava ali. Entendíamos por cultura a criação de qualquer espaço de encontro entre os homens e eram cultura, para nós, todos os símbolos da identidade e da memória coletivas: testemunhas do que somos, as profecias da imaginação, as denúncias que nos impedem de ser.”  Eduardo Galeano.


Tudo Igual?

O olho que vê o mundo sob uma única lente, que espera uma imagem uniforme e a concebe como a única verdadeira, certamente precisa de óculos: seu olhar é distorcido, limitado, gradativamente prejudicado pela cegueira da unilateralidade. A beleza das coisas e seres está nas multiplicidades, nas inconstâncias, nos devires.

A beleza do mundo, para um olho dotado de olhares – e não apenas de um olhar – é a beleza dos mundos, das gentes, das vidas. Olhe para uma multidão, para um sem-número de pessoas reunidas em prol de um objetivo comum, uma Praça Tahrir, por exemplo. O que você vê? Uma massa humana homogênea – um rebanho – ou uma pluralidade de saberes, viveres e sentires que se unem? O comum, diferentemente do que largamente se diz, não exclui as diferenças, pelo contrário, as ressignifica. Se todos ali fossem iguais, pensassem de modo igual, provavelmente não teriam a força para significar as manifestações: foi a união de pensamentos – os diferentes pensares – e as vontades de ação e mudança que fizeram os protestos caminhar.

Olhe para um coletivo. Um ônibus lotado mesmo. Quantos rostos, vidas, sonhos, angústias, alegrias e agruras você vê? Ou só vê um amontoado de pessoas indo trabalhar ou estudar? Olhe para uma sala de aula. Vê as paixões, expectativas, esperanças e vontades nos rostos? Olhe para as ruas, para o movimento das pessoas em seus andares. Olhe para os gestos, escute as vozes, observe, sinta. Tudo parece igual? Como conceber então, diante dessa pluralidade, verdades imutáveis e absolutas, culturas superiores, mundos mais desenvolvidos? Fazer isso seria limitar a beleza das coisas, impossibilitar os debates, negar os devires. Um discurso que nega o outro anda mal das pernas. Pretensioso, mede o mundo com seu próprio metro.

O próprio pensamento não é uniforme – enquanto escrevo, o pensamento vai e vem – tampouco a linguagem. Por que impor que “o meu está certo e o seu errado”, se mesmo o indivíduo é uma inconstante de pensares, fazeres e sentires, se mesmo seu expressar está em constante movimento? Um mundo sem movimentos, homogêneo, acabado, perfeito é um mundo morto. Não me interessa. O mundo que me interessa é um mundo vivo, cheio de movimentos, vidas, vozes, vontades, paixões, alegrias, cores e sabores. Imperfeito e inconstante. Plural, inacabado. Vivo.

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