Incomunicabilidade

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Meu diagnóstico precipitado se revela a cada abrir e fechar de olhos mais verdadeiro e irreversível. Minha boca seca, meus olhos enchem-se do líquido escasso, meu coração segue descompassado desde a última vez e isso só piora. Falta algo entre meus dedos, o que ouço é pouco demais, a ausência que deveria me fazer esquecer, só me lembra um tanto mais. Eu tenho que parar de contar as vezes em que eu acordo no meio da noite e, feito bêbado no escuro, levanto em desconcerto procurando tua voz, teu cheiro, tua pele, teu gosto por tudo quanto é canto até me dar conta de que não está aqui. E, feito criança, volto para a cama, me cubro de alguma solidão e medo de perder algo, luto para manter os olhos fechados, acabo adormecendo e voltando ao mesmo lugar.

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Vermelho é Vermelho

A crueza de sua alma sangra como o vermelho que jorra
da ponta de nossos dedos quando nos debruçamos em
nossos escritos.

Somos assimetricamente iguais, como costumava dizer
aquela moça que nos mata lentamente a cada vez
que ousamos fraquejar e sucumbir aos seus perigosos
encantos. É apenas em nós que ela vive.

No fim das contas, vermelho só pode ser vermelho.

Grandes Inimigos: Normalidade

O Grito (1893) -  Edvard Munch

O coliseu está deserto. Meu adversário não sente nada minimamente significante para opor ao meu ódio. Meu inimigo é estéril. Não há uma só chama acesa em seu coração. Não há coração. Não há luta. Não há sangue. Não há vida. Ainda assim, meu inimigo é forte, difícil de destruir.

Meu inimigo é a normalidade. Se a odeio profundamente, é porque amo os mundos que fogem dela. A beleza do invisível, a virtude do distante, a Loucura do Eu e do Outro só são possíveis em mundos que pulsam, que respiram, que vivem.

A normalidade nada afirma: nega os Múltiplos, os Eus, as Histórias, os Mundos. Ela própria se apresenta como o Anti-Mundo, ao homogeneizar tudo numa ilusão acima da realidade mesma.  O Anti-Mundo não pode odiar porque não sabe amar. Não sabe amar porque não é livre. Todos os seres humanos que não se desprendem dele são por consequência, não livres. E como é difícil libertar-se desse mundo claustrofóbico!

A Grande Multidão grita, sussurra, chora, discorda, cria, constrói, destrói, produz. A massa obediente apenas ouve o discurso superior e o reproduz. É fácil se perder na infinitude de rostos da Grande Multidão. Questão de economia: a massa obediente se esconde sob uma mesma máscara.

Como me irrita essa felicidade pré-fabricada! Dispenso esses sorrisos de plástico e esses beijos açucarados. Prefiro que a Tristeza e a Solidão habitem em mim, costuradas sob minha pele, nutridas pela dor de existir. Não é que eu não queira a alegria. A quero, mas não como um ideal inatingível, como um arco-íris que não posso tocar. Quero, em verdade, muitas Alegrias, de tantos sabores quanto for possível.

Corpos vazios desfilam em seu cortejo de medo, sepultando os ossos restantes de seres que um dia já foram capazes de viver, mas que caíram, cedo ou tarde, nas garras da normalidade.

Desprezo tudo o que já nascer morto, tudo o que exalar morte na vida.

Antes o sonho e o delírio que a ilusão. Antes a tragédia que o melodrama. Antes o prazer e a dor que a dormência. Antes a revolta que a impotência. Antes a raiva que o ressentimento. Antes o sabor de uma incerteza conquistada que a amargura de uma certeza estática e anêmica. Antes perder o fôlego por lutar contra uma violenta correnteza que esperar que a maré baixe para entrar no mar. Antes a ação que a reação. Antes ver mil desgraças e mil virtudes todos os dias que entregar meus olhos à cegueira voluntária.

Os espíritos livres morrem de amor. As almas normais morrem de tédio.

Síntese

A poesia atravessa minh’alma, machuca meu corpo, toma-o para si.

Os versos escorrem das minhas mãos atadas,

Você é o verso que não cabe mais em mim.

Amálgama

Houve um tempo em que eu me convenci de que precisava estar rodeada de pessoas que amassem a vida tanto quanto eu. Eu precisava encher meu espírito de um vitalismo quase que hormonal, levemente febril e essencialmente apaixonado. Eu precisava desprender-me das amarras de julgamentos morais, de anemia de afetos, de economia de vidas, de desamores pré-prontos e de carreiras tediosas. Eu precisava viver. Eu precisava subir à superfície. Eu precisava respirar.

É claro que a tentativa foi um quase completo fracasso. A vida real agarrou-me pelo pescoço e levou-me de volta aos submundos. Fez-me ainda pior: arrastou-me para outros submundos, obrigou-me a frequentá-los e ordenou que eu cumprisse todos os compromissos requeridos pela Grande Máquina, mesmo que eles se traduzissem em atividades meramente formais e tediosas.

Mas as experiências não me foram de todo ruins, pelo contrário. Descobri que há também vida nos submundos. Mais que isso: aprendi que a semente da vida germinava nesses lugares. E por dentro deles, descendo aos seus becos escuros e ruas tortuosas, fui absorvendo todos os tipos de materiais humanos, fotografando todos os cotidianos que encontrava pela frente, engolindo muitas dores e apunhalando algumas injustiças. Sem querer chegar ao “topo”, lutei para não subir demais na escada que leva ao Grande Objetivo. Mas acabei subindo alguns degraus, por pura convenção. Então, descobri que eu não estava imune ao Grande Sistema: sou eu também um fantoche, mesmo que com muitos desvios da normalidade.

Sou eu também um fantoche: como isso soa estranho aos meus ouvidos. Sou eu também um fantoche? É claro, mais dia menos dia, eu teria de ser. Ou fingir. Fico com a segunda opção.

Com uma certa dose de crueldade e um tanto maior de generosidade, sigo costurando algumas feridas do mundo, encenando o necessário para sobreviver e amando demasiadamente para viver. Eu não preciso subir de novo à superfície, travestir-me de eremita e respirar do ar puro do topo da montanha. Eu posso amar a vida aqui embaixo. Eu preciso respirar desse ar e engasgar-me com as impurezas de uma existência desgastada. Eu devo colorir de vida esse abismo.

Dessa vez, passei muito tempo longe do blogue. Não é que a solidão tenha acabado, é que senti a necessidade de distanciar-me um pouco do meu pupilo. A vida não deixou brechas e estendeu o hiato. Pensei em abandoná-lo definitivamente. Mudei de ideia várias vezes.

A vivência trouxe alguns elementos novos e pôs para dormir muitos outros.

 

Ser artista = fazer arte?

Créditos da imagem: Fractal Ontology

Tout art est une révolte contre le destin de l’Homme” (Toda arte é uma revolta contra o destino do homem) André Malraux

Como é possível um homem que não pode criar, realizar, fazer arte, ser artista?                  

É no mínimo cômico – para não dizer lamentável – que o termo artista tenha ganhado uma significação, de modo geral, tão rasa. Ao invés de ser artista aquele que faz arte, é artista aquele transformado em estrela, ícone pop. Ser uma estrela pop não significa necessariamente fazer arte, significa ser uma figura que, por algum motivo, ganhou destaque no mundo das estrelas, no universo dos famosos.

Produz-se então, toda uma “aristocracia artística”, que arranca suspiros, choros e todo tipo de atitudes ridículas dos fãs, além de fornecerem um potencial significativo de material inútil para nutrir as “novidades” de certas mídias. E então se acaba vendo aquela nova-velha relação de idolatria: o pastor e seu rebanho, o escolhido e os condenados, o artista e os não-artistas, o ídolo e os fanáticos.

Há um entorpecimento arraigado nos que acreditam piamente nos ídolos: impotentes, não podem fazer coisa alguma senão tentar reproduzir , já que são incapazes de produzir, de criar. Que é o homem senão um ser criador? Se não o é, se o potencial de criação encontra-se nas mãos de “eleitos”, para que diabos ser humano então? Digo, qual a diferença entre um homem passivo, que não age, que não cria, que só escuta o que os outros dizem, que não pensa por si, e um animal domesticado?

Podem me chamar de purista – o que certamente não sou -, mas quando a arte não é veículo de expressão, quando é apenas pretexto para alguma outra coisa – consumir ou vender cervejas, por exemplo -, se assemelha com algum tipo de anemia. E isso não é um purismo estético nem um primor pela “arte pela arte”. Pelo contrário, é um desejo de uma arte pungente, que seja invenção, criação e contemplação de mundos, fruto da poesia que inflama os corações das gentes.

Seriam melhores esses artistas-estrelas do que os artistas das ruas, dos becos, das vanguardas, dos mundos, dos submundos, das esquinas, dos guetos, das favelas, das praças, das rodas, das vilas, dos subúrbios, das oficinas de cultura, dos muros, das roças, das praias, dos corações e espíritos que transbordam de vontade? Haveria escolhidos, indivíduos destinados desde o nascimento a governar, guiar e conduzir os pobres-diabos que não nasceram sob o signo da bem-aventurança e que, em conseqüência, não detém o poder? Quantas vozes serão ainda serão suprimidas enquanto homens ainda privarem-se de levantar suas vozes, seus pensamentos e seus desejos porque não se julgam capazes?

Acreditar em uns poucos é fechar os olhos para toda a pluralidade do mundo. Não acredito em ídolos, não acredito em representatividade. Dei-me o benefício da dúvida, a força da crítica e o poder da desconfiança. Verdades imutáveis que caem do céu não me satisfazem. Arte é expressão. Artistas somos todos nós, os que criam.

Que a arte não seja algo acabado. Que seja jovem*, que seja voz, que seja revolta, que seja LIBERDADE.

Que seja Eterno devir artístico.

Pós-escrito: O texto faz referência ao “mainstream”, que quer queiramos ou não, quer busquemos mídias e artistas alternativos ou nos apeguemos “às raízes”, ainda faz desfilar em nossa sociedade as inutilidades de “artistas” pré-fabricados, sejam eles de plástico ou de ouro.

*A palavra Jovem está aqui empregada não num sentido biológico, mas num sentido artístico, numa vontade e urgência de arte. 

“A cultura não terminava para nós, na produção e consumo de livros, quadros, sinfonias, filmes e obras de teatro. Nem começava ali. Entendíamos por cultura a criação de qualquer espaço de encontro entre os homens e eram cultura, para nós, todos os símbolos da identidade e da memória coletivas: testemunhas do que somos, as profecias da imaginação, as denúncias que nos impedem de ser.”  Eduardo Galeano.


Tudo Igual?

O olho que vê o mundo sob uma única lente, que espera uma imagem uniforme e a concebe como a única verdadeira, certamente precisa de óculos: seu olhar é distorcido, limitado, gradativamente prejudicado pela cegueira da unilateralidade. A beleza das coisas e seres está nas multiplicidades, nas inconstâncias, nos devires.

A beleza do mundo, para um olho dotado de olhares – e não apenas de um olhar – é a beleza dos mundos, das gentes, das vidas. Olhe para uma multidão, para um sem-número de pessoas reunidas em prol de um objetivo comum, uma Praça Tahrir, por exemplo. O que você vê? Uma massa humana homogênea – um rebanho – ou uma pluralidade de saberes, viveres e sentires que se unem? O comum, diferentemente do que largamente se diz, não exclui as diferenças, pelo contrário, as ressignifica. Se todos ali fossem iguais, pensassem de modo igual, provavelmente não teriam a força para significar as manifestações: foi a união de pensamentos – os diferentes pensares – e as vontades de ação e mudança que fizeram os protestos caminhar.

Olhe para um coletivo. Um ônibus lotado mesmo. Quantos rostos, vidas, sonhos, angústias, alegrias e agruras você vê? Ou só vê um amontoado de pessoas indo trabalhar ou estudar? Olhe para uma sala de aula. Vê as paixões, expectativas, esperanças e vontades nos rostos? Olhe para as ruas, para o movimento das pessoas em seus andares. Olhe para os gestos, escute as vozes, observe, sinta. Tudo parece igual? Como conceber então, diante dessa pluralidade, verdades imutáveis e absolutas, culturas superiores, mundos mais desenvolvidos? Fazer isso seria limitar a beleza das coisas, impossibilitar os debates, negar os devires. Um discurso que nega o outro anda mal das pernas. Pretensioso, mede o mundo com seu próprio metro.

O próprio pensamento não é uniforme – enquanto escrevo, o pensamento vai e vem – tampouco a linguagem. Por que impor que “o meu está certo e o seu errado”, se mesmo o indivíduo é uma inconstante de pensares, fazeres e sentires, se mesmo seu expressar está em constante movimento? Um mundo sem movimentos, homogêneo, acabado, perfeito é um mundo morto. Não me interessa. O mundo que me interessa é um mundo vivo, cheio de movimentos, vidas, vozes, vontades, paixões, alegrias, cores e sabores. Imperfeito e inconstante. Plural, inacabado. Vivo.

>Entre Bonecas de Porcelana e Bonecas de Plástico…

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  Rosto angelical, pele clara, róseas maçãs faciais, cabelos delicados, vestidos belíssimos. Bonecas de porcelana são perfeitas. Delicadas, intocáveis, sem defeito algum. Existiam em larga escala há algum tempo atrás, quando os títulos de nobreza davam mais poder e prestígio. Eram damas elegantes, princesas comportadas. Alguns exemplares ainda podem ser encontrados, principalmente em filmes da Disney.
  Mas essas bonecas quebram com facilidade, dão muito trabalho. O mercado mudou e agora o negócio é outro: bonecas de plástico. Elas não quebram, são facilmente desmontáveis e possuem um vasto estoque de peças de reposição. Sempre seguem as tendências. Nada é bastante, tudo é ultrapassado. Já não é mais preciso espartilho. Agora, lipoaspirações: corpos obrigatoriamente magros! Todas perfeitamente perfeitas, iguais, como se fossem sintetizadas de uma só vez, numa só linha de produção.
  E as que não são de porcelana nem de plástico? E as que não quebram nem desmontam? Ah… Essas são de sangue, carne e ossos… Imperfeitas mesmo, mas de verdade.

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