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Olhar Cinema, Cinema Olhar*

Que poderia ser o cinema se não um olhar ante os mundos, ante os seres, ante os afetos, ante as realidades, ante as imagens, ante as vidas?

Esse olhar cinema/cinema olhar não se traduz numa visão corriqueira. É, antes de tudo, uma experiência de corpos inteiros – não apenas dos sentidos responsáveis pela visão, audição e fala –, de mentes, de paixões. É reflexão, análise. É invenção, é reinvenção. É imaginação, é tradução de mundos. É a imagem que fica, que assume vida na arte. É questionar, é transgredir. É libertar, é inquietar. É fazer, realizar. É apreciar, é amar.

E é justamente essa falta de um cinema olhar/olhar cinema – ou em palavras mais duras, a abundância de um cinema consumo – na generalidade da grande indústria cinematográfica que preocupa. Assumindo os fluxos do capitalismo mais que desenfreado, o “cinema consumo” acaba por moldar-se a partir de uma lógica rápida e superficial. Não é preciso mais ver o filme: os grandes blockbusters de hoje tornam-se sucessos antes mesmo de serem vistos.

De um lado, há a realização de um cinema que busca o efeito antes mesmo da imagem, que movimenta bilhões e bilhões, mas que não consegue carregar movimentos de outros corpos que não sejam vazios ou cheios demais. Doutro lado, uma audiência meio que despreocupada, acrítica, que assiste ao filme sem assistir, desapaixonada pelo diálogo, mas certamente “apaixonada” pelo hype de alguma “estrela” ou produto, que pouco dá significação ao debate e à profusão de ideias na tela, e que cede facilmente aos estereótipos, aos fetiches e às parafernálias ambulantes de desperdício tecnológico.

Mas tratar desse assunto não é nada fácil e as coisas não são tão claras. Há um perigo enorme em separar cinema de arte e cinema de consumo – essa dicotomia o próprio sistema político-econômico-social trata de alimentar. Ora, todo fazer cinema não seria um fazer arte? Ora, todo ver cinema não seria um exercício de apreciação artística? Então, poderia um cinema que não fosse arte?

A discussão talvez seja inesgotável. Mas o intuito não é responder a essas questões e sim, entendê-las para trazer a problemática do olhar profundo e do olhar superficial ante o cinema.

Vejamos, em grande parte das vezes, o olhar crítico cinematográfico se restringe à figura do cinéfilo. Quase não se vê um olhar além daquele espectador esporádico ambientado em cinemas de shoppings centers (quase absolutos na maioria das cidades). Mais que isso, o “ver sem ver”: cinemas lotados, porém barulhentos, repletos de espectadores distraídos. E então o cinema – como os concertos e outros tantos ambientes artísticos – acaba por significar um local de “rituais sociais e de consumo”, onde o filme é elemento secundário, pano de fundo, e não objeto do olhar. Há a fetichização, a idolatria levada à tela, a bilheteria garantida antes mesmo de o filme ser realizado. Quer ver? É só criar um produto ou ídolo que seja capaz de lançar moda. Associe-o ao filme e pronto. “Sucesso” garantido. Mas cinema não é publicidade.

Alternativas à lógica dos cinemas de shoppings centers existem, mas ainda são poucas. O problema, como já mencionado, é que o público ainda é pequeno – não raro, quase em sua totalidade composto por cinéfilos apaixonados – e o incentivo é menor ainda.

Fazer cinema apesar de um sistema excludente e ganancioso, ver cinema apesar de nos furtarem os olhos.

Diante de todas essas problematizações e fraturas do modo de ver o cinema contemporâneo – num piscar de olhos –, surgem duas máximas possíveis, nos pólos da “questão do cinema de consumo”. Num pólo, há o “cinema de frivolidades”, onde o mais-do-mesmo reina. Noutro pólo, o cinema superproduzido, onde a técnica ultrapassa limites até então utópicos, mas não consegue potencializar os significados e justificar os argumentos. Cinema não é comercial de margarina nem ringue de luta de robôs. Cinema é Cinema, tem de ser Cinema.

Sob outra perspectiva, o problema também não se reduz. Amiúde há, nesse tal cinema comercial, o esvaziamento dos corpos: rostos e corpos belos o suficiente para criarem a ilusão de perfeição, mas que não conseguem se traduzir em imagens, nem evocar afetos reais, nem expressar, nem ao menos provocar. E ainda uma outra possibilidade, também não rara, de um cinema que se diz problematizante e grande a todo o momento: rostos e corpos cheios demais, personagens transbordando de dramas psicológicos complexos e arrojados, mas que não conseguem fugir da superficialidade de seus mundinhos idílicos e impenetráveis.

Um cinema pressentido, ressentido, não sentido. É essa a face anêmica do “cinema comercial”: ver um filme é olhar de relance. Falta vitalidade, falta potência, falta vontade. Sobra auto-intitulação, estrelismos e pedestais. Falta diálogo, falta crítica, falta ideia. Falta afeto, sobra fanatismo. Para fugir do cinema de superfície, esforços para além do mundo cinematográfico são necessários, são imprescindíveis novas formas de ver o mundo, de criá-lo e recriá-lo, não só no que tangencia as artes, mas também as economias, as políticas e as relações humanas.

Se falta arte na vida é porque falta vida na arte. Significar e ressignificar o cinema é preciso, para que todo filme seja um filme vivo, profundo, reflexivo, crítico e liberto, capaz de provocar emoções verdadeiras, sejam elas de ódio ou amor à obra. Antes de tudo, antes de ser bom ou ruim, é necessário que o filme seja capaz de se fazer sentir, de se fazer olhar.

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*A temática do olhar sobre as coisas já foi trabalhada neste blogue em outro artigo. Peço desculpas à/ao car@ leitor@ se me tornar pedante e/ou repetitiva.   

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