Incomunicabilidade

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É tudo nosso e a vida não acabou

De ventos outros…

Contra a correnteza apocalíptica deste lado do mundo, que não cansava de anunciar que o fim dos tempos viria do terror do obscuro desocidente, o Oriente (re)ensina o mundo a respirar novamente, a vivê-lo. Não, não estamos diante do apocalipse. Mas um mundo está fechando os olhos enquanto outro começa a abri-los. Os ventos da primavera jasmínica estão a soprar para todos os lados.

Sopram por todos os lados, por aqui também.

Aqui no Brasil, nessa terra de muitas gentes, nesses campos plurais desbrasileirados, imperfeitos e inacabados, que subvertem o estereotipado e ilusório Made in Brazil, os espaços sociais e políticos começam a ser ressignificados.Voltamos às ruas.

Por que voltamos às ruas?

Voltamos às ruas, porque intoxicados de revolta e desejo, (re)conquistamos o sabor de lutar. Em todos os tempos, resistimos. Agora, mais uma vez, é hora de agarramos o momento e resistir mais e melhor.

Voltamos às ruas, porque a falácia neoliberal da “liberdade para ‘crescer na vida’” não nos ilude. Não queremos estar no topo, queremos estar no mundo. Por isso tomamos as ruas, por isso marchamos, por isso fazemos greves. Em contraponto à representatividade anêmica do sistema político, potencializamos a participação política direta, a construção de uma política viva, o desejo de um trabalho que não surja natimorto.

Por que marchamos?                   

Marchamos porque não temos de ter vergonha de ser mulher, gay, bombeiro, índio, professor. Marchamos porque queremos ser, porque queremos o direito de ser.

Marchamos pela Liberdade, por um Estado Livre e Laico. Marchamos porque não queremos esse desenvolvimentismo travestido de progresso. Marchamos porque não queremos rifar nossas florestas, nossas gentes, nossos rios, nossas cidades.

Marchamos porque não temos medo de dizer que Belo Monte é um crime.

Marchamos porque somos brasileiros, não caricaturas abrasileiradas. Não somos anjos nem demônios, nem ingênuos nem maquiavélicos. Não precisamos ser domados, não precisamos ser “civilizados”. Somos um Brasil que acontece. Somos Macunaíma: nem herói nem vilão, brasileiro porque desbrasileiro.

Marchamos pela alegria das multidões. Marchamos porque lutamos.

Por que fazemos greves?                 

Fazemos greves porque, cansados de construir nossa própria indignidade com suor e sangue, temos de pressionar a Grande Máquina por algum lado. Fazemos greves porque não nos contentamos com migalhas, queremos, em verdade, transformar nossos mundos.

E não venham fazer nosso cadáver dizendo que somos baderneiros ou preguiçosos. Essa história da carochinha não mais engana.

Se paralisamos, é porque queremos que as coisas funcionem, mas não de qualquer jeito. Se paralisamos, é porque queremos poder voltar a trabalhar de forma digna.

Fazemos greves porque, por dentro da greve, tecemos redes políticas vivas, de participação, de debate, de vivência. Fazemos greves porque precisamos lutar pela Educação, pela Saúde, pelo Transporte, pelas gentes: pelo operário das obras faraônicas, que transpira para construir um Brasil e é explorado pelas empreiteira$; pelos trabalhadores dos transportes, que além de sofrerem com seus salários baixos, trabalham com medo da violência; pelos profissionais da saúde que, não raro, trabalham sem as mínimas condições (faltam equipamentos, estrutura, …); pelos professores, que lutam todos os dias para dar significado à palavra Educação, apesar das feridas abertas, dos salários de fome, das escolas precárias…

Fazemos greves porque resistimos. E resistimos, a cada amanhecer, mais e melhor.

Fazemos greves porque se construímos mundos, não podemos reinventá-los?

Os Sonhadores

Não nos satisfazemos com os planos simplistas de existência que cortam a potência da vida. Queremos sonhar e fazer sonhar. Queremos que o existir tome um outro significado, se encha de vida, se desenhe à várias cores.

Nosso sonho não é perfeito, distante, irrealizável. Nutrimos o desejo de torná-lo, e o fazemos a cada dia, sem medo de errar: lutando. Queremos o sonho vivo.

É tudo nosso e a vida não acabou.

De que progresso nos falam? De que progresso falamos?

Esse progresso de linha reta, onde tudo cresce, avança, evolui, desenvolve,  já não nos parece tão brilhante aos olhos. Que tipo de progresso é esse? Por que já não mais nos apegamos às promessas do progredir vindouro? Em algum tempo, acreditamos em verdade nesse tal progresso?

O mundo respira o desejo de viver em contraponto à cordial conveniência de sobreviver. Se há um mundo velho e impotente, há outro que pulsa, que potencializa, que grita. Há um mundo que acontece por dentro e para além deste mundo fraturado. É um mundo que se indigna, que começa a tomar as ruas, a transformar os espaços, a ouvir, a falar, a insurgir, a subverter as lógicas apáticas de sistemas doentes, a articular as lutas, a fazer ressurgir o devir revolucionário.

Não cessam de acontecer, de crescer, de multiplicar, de partilhar, de fervilhar lutas mundo afora. A urgência dos rostos, mentes e corações pintam multidões cheias de cores, paixões, alegrias e revoltas. Sem dúvida, há algo acontecendo.

Para onde está indo o progresso do desenvolvimento em meio a tudo isso? O progredir tecnológico, a esperança de nos tornarmos “desenvolvidos”, o sucesso e a realização financeira já não nos motivam tanto assim? É possível falar que tudo isso está a declinar?

A verdade é que o tal progresso prometido é um tanto anêmico. É em nome dele que crimes ambientais e sociais como Belo Monte se apresentam. É em nome dele que milhares de pessoas são removidas de seus lares, das ruas e dos mercados para “dar espaço” e tornar possíveis megaeventos, obras faraônicas e especulações imobiliárias. É em nome dele que as cidades cada vez mais se tornam menos dos cidadãos e mais dos carros, shoppings e prédios. Só pode ser em nome dele que os governos – não só brasileiros – cortam gastos em áreas essenciais (saúde, educação, segurança…), mas não hesitam investir em projetos que não se fazem tão necessários às populações.

Estamos avançando para onde? O quê isso significa para nós? O que queremos afinal? Essas perguntas só podem ser respondidas se olharmos para as acampadas, para as marchas, para as manifestações, para as assembléias, para as greves, para os debates, para as lutas: a lógica do “avanço em linha reta” já não interessa, o que queremos é viver, o que importa agora é como queremos viver.

E é a partir desse “como queremos viver” que se articulam os esforços de criação e recriação, de transformação do comum, do livre, do pungente, do trabalho num sentido outro.

No fundo, não queremos esse tal progresso. Queremos a metamorfose…

Nota: Quero deixar bem claro que esse progresso de que falo nada tem a ver com o progressismo. O “progresso” do texto é o discurso que se apropria do termo “progresso” para tomá-lo como “luz para o desenvolvimento”…

Tudo Igual?

O olho que vê o mundo sob uma única lente, que espera uma imagem uniforme e a concebe como a única verdadeira, certamente precisa de óculos: seu olhar é distorcido, limitado, gradativamente prejudicado pela cegueira da unilateralidade. A beleza das coisas e seres está nas multiplicidades, nas inconstâncias, nos devires.

A beleza do mundo, para um olho dotado de olhares – e não apenas de um olhar – é a beleza dos mundos, das gentes, das vidas. Olhe para uma multidão, para um sem-número de pessoas reunidas em prol de um objetivo comum, uma Praça Tahrir, por exemplo. O que você vê? Uma massa humana homogênea – um rebanho – ou uma pluralidade de saberes, viveres e sentires que se unem? O comum, diferentemente do que largamente se diz, não exclui as diferenças, pelo contrário, as ressignifica. Se todos ali fossem iguais, pensassem de modo igual, provavelmente não teriam a força para significar as manifestações: foi a união de pensamentos – os diferentes pensares – e as vontades de ação e mudança que fizeram os protestos caminhar.

Olhe para um coletivo. Um ônibus lotado mesmo. Quantos rostos, vidas, sonhos, angústias, alegrias e agruras você vê? Ou só vê um amontoado de pessoas indo trabalhar ou estudar? Olhe para uma sala de aula. Vê as paixões, expectativas, esperanças e vontades nos rostos? Olhe para as ruas, para o movimento das pessoas em seus andares. Olhe para os gestos, escute as vozes, observe, sinta. Tudo parece igual? Como conceber então, diante dessa pluralidade, verdades imutáveis e absolutas, culturas superiores, mundos mais desenvolvidos? Fazer isso seria limitar a beleza das coisas, impossibilitar os debates, negar os devires. Um discurso que nega o outro anda mal das pernas. Pretensioso, mede o mundo com seu próprio metro.

O próprio pensamento não é uniforme – enquanto escrevo, o pensamento vai e vem – tampouco a linguagem. Por que impor que “o meu está certo e o seu errado”, se mesmo o indivíduo é uma inconstante de pensares, fazeres e sentires, se mesmo seu expressar está em constante movimento? Um mundo sem movimentos, homogêneo, acabado, perfeito é um mundo morto. Não me interessa. O mundo que me interessa é um mundo vivo, cheio de movimentos, vidas, vozes, vontades, paixões, alegrias, cores e sabores. Imperfeito e inconstante. Plural, inacabado. Vivo.

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