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>A Batalha do Chile, a Luta de um Povo Sem Armas

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      “O cineasta não é um observador neutro e desapaixonado da realidade. É um participante ativo.”
                                                                                                                Patricio Guzmán, cineasta

   Me parece que a História Oficial geralmente tende a afastar de nossos olhares a História onde o povo figura como sujeito, e não apenas como observador distante. Isso gera um distanciamento, uma sensação de impotência popular. É o mecanismo perfeito para afastar a História dos que a construíram. 
  Patricio Guzmán, em “A Batalha do Chile”, captura um momento bastante difícil (e significativo!) da história do Chile e da América Latina: o governo de Salvador Allende e o golpe de Estado que o derrubou. A tentativa de chegar ao socialismo por via democrática, impedida pelos esforços da oposição e dos EUA, engendrou uma complicada situação.
  O documentário mostra o desenrolar da luta de classes, acirrada pelas crises, até o advento do golpe de Estado. Na verdade, não se apresenta tão linear assim. A película é dividida em três partes: A Insurreição da Burguesia, O golpe de Estado e O Poder Popular. Na primeira parte, visualizamos, em primeiro plano, os esforços dos opositores para derrubar o governo da Unidade Popular. A direita – Partido Nacional e Democracia Cristã – possuía maioria no Congresso e fazia disso um poderoso instrumento contra Allende e os intentos de alcançar o socialismo. Em sua última cena, o cinegrafista argentino filma sua morte a tiros vindos das mãos de um oficial do exército. É um prenúncio para o que vem a seguir: O Golpe de Estado.
  Como o nome já anuncia, a segunda parte do documentário traz os momentos que “preparam” o golpe. As crises, as greves nos transportes, as contradições na esquerda, o fascismo de grupos de extrema-direita, as conspirações militares. A oposição, com o auxílio dos EUA, atirava para todos os lados, espremia o governo com todos os artifícios “legais” e ilegais que lhe valessem. Apesar da tentativa de aproximação de Allende, a Democracia-Cristã negou o acordo com o governo. Com a estrutura chilena já bastante tensionada e o governo sendo golpeado a duros punhos, o caminho para o golpe foi aberto. Em 11 de Setembro de 1973, o Palácio do Governo é bombardeado por Pinochet. Salvador Allende, antes de sua morte, deixa um belo discurso. Um discurso de um homem que tentou instaurar o governo do povo valendo-se da estrutura democrática. Mas a estrutura democrática não parece tão democrática assim.
  Na última parte, O Poder Popular, vemos um povo com consciência, organizando-se para que o poder chegasse realmente nas mãos dos trabalhadores. Porque apesar das várias nacionalizações e das tentativas de fazer andar o processo revolucionário, o Chile ainda era sufocado por um Estado Burguês. Dois, na verdade. O imperialismo estado-unidense estava ali, fomentando as crises. Diante das várias barreiras em sua frente, o povo articula-se para neutralizar a crise, utilizando-se de cordões industriais, comitês camponeses, abastecimento comunitário e de sua principal arma: a força popular. É essa força que faz ecoar o lema: “Criar, criar, poder popular”. Assim, os trabalhadores chilenos atuam como sujeitos, questionando, organizando, intervindo e agindo. E para os que dão ouvidos unicamente à História dos opressores, o povo mostra que não é apenas número, massa impotente, rebanho manipulável…
  A Batalha do Chile: A Luta de um Povo Sem Armas documenta a transformação de um sonho em ruínas e a construção de um governo opressor em cima delas. Mais que isso: não deixa a memória se esvair. Nas palavras de Guzmán: “No Chile, demoliu-se tão sistematicamente a imagem do governo Allende nos últimos 30 anos que tenho a impressão de que o filme é a única prova de que aquilo existiu”.

Outra vez advertindo

Trago aqui o sinal de uma emergência,
Toco o alarme ao povo vencedor.

É preciso juntar força e consciência,
O Chile é uma batalha de existência
– Batalha da honra e do amor.

                                             Pablo Neruda

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