Incomunicabilidade

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Não há democracia de uma só voz: Participar é preciso

Créditos da imagem: fractalontology.wordpress.com

Se numa democracia a participação é elemento imprescindível – condição de existência –, como ainda permitir a falta de espaço, a neutralização, o corte na potência e o apequenamento da participação política e cultural do cidadão tido como comum, que não faz parte da “classe artística”, tampouco da “classe política”?

Em parte por nossa herança recente de uma ditadura cívico-militar e pela “lógica” capitalista neoliberal e em parte pela influência cotidiana de uma mídia tradicional hierárquica, possuímos inconscientemente uma consciência geral que polariza a sociedade, que demoniza a política, endeusa ícones e exclui o cidadão comum de uma participação político-cultural efetiva. Para que um dia a democracia brasileira faça justiça ao nome que carrega e torne-se real e plural, temos que desmistificar esses conceitos de coerção, manipulação e idolatria que serviram por muito tempo para desenhar uma história de censura, opressão, entorpecimento, distorção, supremacia e exclusão.

Demonizar a política talvez seja a destreza essencial para garantir o silêncio dos cidadãos. Não é preciso pensar muito para concluir que um povo desinteressado nas políticas implementadas em sua sociedade é um povo inofensivo a conjunturas produzidas para impor, controlar e iludir. Por que educar politicamente – mais que isso, criticamente – se podemos “formar” toda uma massa de analfabetos políticos que não será perigosa para nós? Daí vem a generalização de que todo político é corrupto e algo ainda mais nocivo: a ideia que a política é e/ou deve ser a ação corrupta de homens corruptos. Em outras palavras, é a limitação da política a figura do homem político. Isso engendra a típica sensação de impotência, que os que se beneficiam com a exclusividade do poder a uma determinada classe tanto desejam. Se a política é algo ruim, se se resume a figuras corruptas no poder, por qual motivo eu perderia meu tempo com política? É essa impossibilidade de saída que favorece aqueles que ganham com o desinteresse político e comodismo crônico dos cidadãos.

Ao afirmar isso, não digo que o povo brasileiro seja inofensivo ou que não deseje melhoras sociais, muito menos que seja um povo passivo. Mas é visto e tratado como se fosse desse modo. Como esperar de uma população consciência política com uma educação ainda acrítica? Como acender a vontade de uma política viva, que possa comunicar em meio a monopólios e oligopólios de informação que não se cansam alardear frivolidades e meias-verdades? Como produzir artisticamente se o “fazer arte” (que nem sempre é fazer literalmente) pertence majoritariamente a uma “classe artística”? Como acreditar numa democracia que se justifica democracia apenas através do voto em representantes e enterra constantemente outras formas de participação política?

Daí a importância da educação e da comunicação efetivamente democráticas. Para que o cidadão se comporte como sujeito-cidadão, é necessário que ele possa ser sujeito-cidadão. Numa democracia, o acesso, o compartilhamento e a produção de informação e cultura não devem ser vetados ou impossibilitados a cidadão algum. Por isso, temos hoje a urgência de uma lei de regulamentação da mídia, de uma reforma na lei dos direitos autorais, de um Plano Nacional de Banda Larga que permita a todos os cidadãos o acesso com qualidade a internet, do incentivo, manutenção e ampliação dos pontos de cultura, da implantação de bibliotecas públicas de qualidade em todas as cidades brasileiras, de uma reforma educacional que abra possibilidades para a formação dos cidadãos e transforme suas potências criativas em criações, ao invés de apenas “qualificar” o profissional para exercer determinada função, do resgate da memória e do fim do silêncio de uma história que ainda sangra com a abertura dos arquivos da ditadura cívico-militar, de mecanismos que permitam que o cidadão comum possa falar e ser ouvido.

Além de lutar, temos que criar. Como escreveu Bruno Cava, temos que tornar-se mídia. Concordo e vou além: temos que ser mídia, temos que ser artistas, temos que ser políticos, temos que ser legisladores, temos que ser militantes, temos que ser ativistas, temos que ser colaboradores, temos que ser, criar, mixar, compor, recompor, opinar, debater, discutir, pluralizar, unir, compartilhar, fazer, articular, organizar, criticar, resistir. Tornar uma democracia real possível não é tarefa acabada, não acontece do dia para noite. A democracia não é nada perfeita, é ao invés disso, plural. E é nessa confusão e pluralidade de vozes que uma democracia pode viver, porque não há democracia de uma só voz.

Ser artista = fazer arte?

Créditos da imagem: Fractal Ontology

Tout art est une révolte contre le destin de l’Homme” (Toda arte é uma revolta contra o destino do homem) André Malraux

Como é possível um homem que não pode criar, realizar, fazer arte, ser artista?                  

É no mínimo cômico – para não dizer lamentável – que o termo artista tenha ganhado uma significação, de modo geral, tão rasa. Ao invés de ser artista aquele que faz arte, é artista aquele transformado em estrela, ícone pop. Ser uma estrela pop não significa necessariamente fazer arte, significa ser uma figura que, por algum motivo, ganhou destaque no mundo das estrelas, no universo dos famosos.

Produz-se então, toda uma “aristocracia artística”, que arranca suspiros, choros e todo tipo de atitudes ridículas dos fãs, além de fornecerem um potencial significativo de material inútil para nutrir as “novidades” de certas mídias. E então se acaba vendo aquela nova-velha relação de idolatria: o pastor e seu rebanho, o escolhido e os condenados, o artista e os não-artistas, o ídolo e os fanáticos.

Há um entorpecimento arraigado nos que acreditam piamente nos ídolos: impotentes, não podem fazer coisa alguma senão tentar reproduzir , já que são incapazes de produzir, de criar. Que é o homem senão um ser criador? Se não o é, se o potencial de criação encontra-se nas mãos de “eleitos”, para que diabos ser humano então? Digo, qual a diferença entre um homem passivo, que não age, que não cria, que só escuta o que os outros dizem, que não pensa por si, e um animal domesticado?

Podem me chamar de purista – o que certamente não sou -, mas quando a arte não é veículo de expressão, quando é apenas pretexto para alguma outra coisa – consumir ou vender cervejas, por exemplo -, se assemelha com algum tipo de anemia. E isso não é um purismo estético nem um primor pela “arte pela arte”. Pelo contrário, é um desejo de uma arte pungente, que seja invenção, criação e contemplação de mundos, fruto da poesia que inflama os corações das gentes.

Seriam melhores esses artistas-estrelas do que os artistas das ruas, dos becos, das vanguardas, dos mundos, dos submundos, das esquinas, dos guetos, das favelas, das praças, das rodas, das vilas, dos subúrbios, das oficinas de cultura, dos muros, das roças, das praias, dos corações e espíritos que transbordam de vontade? Haveria escolhidos, indivíduos destinados desde o nascimento a governar, guiar e conduzir os pobres-diabos que não nasceram sob o signo da bem-aventurança e que, em conseqüência, não detém o poder? Quantas vozes serão ainda serão suprimidas enquanto homens ainda privarem-se de levantar suas vozes, seus pensamentos e seus desejos porque não se julgam capazes?

Acreditar em uns poucos é fechar os olhos para toda a pluralidade do mundo. Não acredito em ídolos, não acredito em representatividade. Dei-me o benefício da dúvida, a força da crítica e o poder da desconfiança. Verdades imutáveis que caem do céu não me satisfazem. Arte é expressão. Artistas somos todos nós, os que criam.

Que a arte não seja algo acabado. Que seja jovem*, que seja voz, que seja revolta, que seja LIBERDADE.

Que seja Eterno devir artístico.

Pós-escrito: O texto faz referência ao “mainstream”, que quer queiramos ou não, quer busquemos mídias e artistas alternativos ou nos apeguemos “às raízes”, ainda faz desfilar em nossa sociedade as inutilidades de “artistas” pré-fabricados, sejam eles de plástico ou de ouro.

*A palavra Jovem está aqui empregada não num sentido biológico, mas num sentido artístico, numa vontade e urgência de arte. 

“A cultura não terminava para nós, na produção e consumo de livros, quadros, sinfonias, filmes e obras de teatro. Nem começava ali. Entendíamos por cultura a criação de qualquer espaço de encontro entre os homens e eram cultura, para nós, todos os símbolos da identidade e da memória coletivas: testemunhas do que somos, as profecias da imaginação, as denúncias que nos impedem de ser.”  Eduardo Galeano.


Tudo Igual?

O olho que vê o mundo sob uma única lente, que espera uma imagem uniforme e a concebe como a única verdadeira, certamente precisa de óculos: seu olhar é distorcido, limitado, gradativamente prejudicado pela cegueira da unilateralidade. A beleza das coisas e seres está nas multiplicidades, nas inconstâncias, nos devires.

A beleza do mundo, para um olho dotado de olhares – e não apenas de um olhar – é a beleza dos mundos, das gentes, das vidas. Olhe para uma multidão, para um sem-número de pessoas reunidas em prol de um objetivo comum, uma Praça Tahrir, por exemplo. O que você vê? Uma massa humana homogênea – um rebanho – ou uma pluralidade de saberes, viveres e sentires que se unem? O comum, diferentemente do que largamente se diz, não exclui as diferenças, pelo contrário, as ressignifica. Se todos ali fossem iguais, pensassem de modo igual, provavelmente não teriam a força para significar as manifestações: foi a união de pensamentos – os diferentes pensares – e as vontades de ação e mudança que fizeram os protestos caminhar.

Olhe para um coletivo. Um ônibus lotado mesmo. Quantos rostos, vidas, sonhos, angústias, alegrias e agruras você vê? Ou só vê um amontoado de pessoas indo trabalhar ou estudar? Olhe para uma sala de aula. Vê as paixões, expectativas, esperanças e vontades nos rostos? Olhe para as ruas, para o movimento das pessoas em seus andares. Olhe para os gestos, escute as vozes, observe, sinta. Tudo parece igual? Como conceber então, diante dessa pluralidade, verdades imutáveis e absolutas, culturas superiores, mundos mais desenvolvidos? Fazer isso seria limitar a beleza das coisas, impossibilitar os debates, negar os devires. Um discurso que nega o outro anda mal das pernas. Pretensioso, mede o mundo com seu próprio metro.

O próprio pensamento não é uniforme – enquanto escrevo, o pensamento vai e vem – tampouco a linguagem. Por que impor que “o meu está certo e o seu errado”, se mesmo o indivíduo é uma inconstante de pensares, fazeres e sentires, se mesmo seu expressar está em constante movimento? Um mundo sem movimentos, homogêneo, acabado, perfeito é um mundo morto. Não me interessa. O mundo que me interessa é um mundo vivo, cheio de movimentos, vidas, vozes, vontades, paixões, alegrias, cores e sabores. Imperfeito e inconstante. Plural, inacabado. Vivo.

“O Jogo é Violento”

Os três primeiros meses do governo Dilma foram bastante turbulentos. Quem esperava uma “continuidade” do governo Lula provavelmente não está satisfeito. No que se refere ao Ministério da Cultura, a mudança de postura é evidente. A direção do MinC, atualmente, se mostra diversa da gestão anterior.

 

A retirada da Licença Creative Commons do site do MinC, a posição frente a reforma da LDA, a mudança no comando da diretoria de Direitos Intelectuais, a polêmica do Blog de Poesia da Maria Bethânia.  O “novo comportamento” do ministério vem sofrendo duras críticas. A ministra descreveu a situação como “Jogo Violento”. Mas não acho que a situação mereça essa denominação. O Ministério não está sendo atacado indiscriminadamente. A ingênua dicotomia “MinC anterior: perfeito” x “MinC atual: terrível” não é válida, só serve para tornar o debate simplista e mascarar discussões mais profundas. O que se reinvidica, é um Ministério realmente democrático, para além das falsas propagandas de democracia.

 

Durante a visita de Barack Obama ao Brasil, a ministra dialogou com o secretário de Comércio dos EUA, Gary Locke. Sobre a conversa, ela afirma: “Ele estava muito preocupado com a questão da liberação dos direitos. De como a flexibilização no direito autoral pode acarretar mais tolerância com a pirataria”. Não caiamos no território ingênuo de que a não-flexibilização no direito autoral protegerá o autor. Essa preocupação com a “tolerância com a pirataria” não salvaguardará os direitos do autor, e sim da indústria sobre o mesmo.

 

Se o Ministério da Cultura pretende ser democrático e apoiar a diversidade, críticas que propõem um Ministério melhor devem ser ouvidas. Não se trata de polemizar, apenas de tocar nos pontos que julgamos ineficientes ou deficientes, tendo em vista um MinC democrático, que não atenda apenas os interesses de uma minoria. Não é um jogo violento, nem mesmo é um jogo – pelo menos por parte dos cidadãos. Se há insatisfações, se há críticas, que sejam verbalizadas. Melhor, que sejam ouvidas.

 

>"Computadores fazem Arte, Artistas fazem Dinheiro"

>Chico Science cantava lá pelos idos de 94, uma frase que materializa uma grande parte do produto da indústria musical: “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. Science se referia à tendência mercadológica de pôr a renda na frente da produção artística, o que não é difícil de observar no mainstream.  Observando os novos caminhos que o MinC vem seguindo, esta frase surgiu de imediato em minha cabeça. De que Cultura se refere o Ministério? Da Cultura de Mercado?

Retirar a licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura significa uma ruptura no processo de viabilização do conhecimento livre que vinha se estendendo nos últimos anos. Não é apenas uma troca de licenças, é certamente uma mudança de postura. Uma renúncia ao apoio da cultura digital coloca o novo MinC em qual direção?
Ora, se o Ministério da Cultura é a favor da democratização da cultura, deveria se posicionar para que as produções culturais e informações sobre a cultura estivessem disponíveis a todos. Isso significa a retirada e não a imposição de barreiras. Se algo é de domínio público, a difusão deve acontecer. E, como um órgão público – que deve(ria) ser para o público –, o MinC deveria viabilizar essa difusão, para que se possa alcançar um maior número de pessoas. Porém, a nova licença apresenta um MinC complicador da difusão, já que “permite a reprodução desde que creditado”, mas não se refere à publicação. Licença, no mínimo, confusa.
Afastando-se da difusão da Cultura Digital, o novo MinC se aproxima de quem? Da velha máquina do Copyright e da “lógica” do ECAD ou de uma nova alternativa para democratizar a cultura? Se há essa nova alternativa, ela não foi mostrada até o momento. O Copyright não tem mais espaço no mundo do conhecimento livre, já que ao invés de beneficiar o autor, alimenta a velha lógica do mercado. A ministra Ana de Hollanda já anunciou ser contrária a “mudanças radicais” numa possível reforma da Lei de Direitos Autorais. Lei essa, demasiado restritiva, que precisa de uma reformulação em verdade.

Os rumos que o MinC vem seguindo engendram um retrocesso e um distanciamento da democratização, da difusão do conhecimento livre. Infelizmente, é isso que se vê nos últimos tempos.

“Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. É lamentável que essa frase ainda continue atual.

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