Incomunicabilidade

Amálgama

Houve um tempo em que eu me convenci de que precisava estar rodeada de pessoas que amassem a vida tanto quanto eu. Eu precisava encher meu espírito de um vitalismo quase que hormonal, levemente febril e essencialmente apaixonado. Eu precisava desprender-me das amarras de julgamentos morais, de anemia de afetos, de economia de vidas, de desamores pré-prontos e de carreiras tediosas. Eu precisava viver. Eu precisava subir à superfície. Eu precisava respirar.

É claro que a tentativa foi um quase completo fracasso. A vida real agarrou-me pelo pescoço e levou-me de volta aos submundos. Fez-me ainda pior: arrastou-me para outros submundos, obrigou-me a frequentá-los e ordenou que eu cumprisse todos os compromissos requeridos pela Grande Máquina, mesmo que eles se traduzissem em atividades meramente formais e tediosas.

Mas as experiências não me foram de todo ruins, pelo contrário. Descobri que há também vida nos submundos. Mais que isso: aprendi que a semente da vida germinava nesses lugares. E por dentro deles, descendo aos seus becos escuros e ruas tortuosas, fui absorvendo todos os tipos de materiais humanos, fotografando todos os cotidianos que encontrava pela frente, engolindo muitas dores e apunhalando algumas injustiças. Sem querer chegar ao “topo”, lutei para não subir demais na escada que leva ao Grande Objetivo. Mas acabei subindo alguns degraus, por pura convenção. Então, descobri que eu não estava imune ao Grande Sistema: sou eu também um fantoche, mesmo que com muitos desvios da normalidade.

Sou eu também um fantoche: como isso soa estranho aos meus ouvidos. Sou eu também um fantoche? É claro, mais dia menos dia, eu teria de ser. Ou fingir. Fico com a segunda opção.

Com uma certa dose de crueldade e um tanto maior de generosidade, sigo costurando algumas feridas do mundo, encenando o necessário para sobreviver e amando demasiadamente para viver. Eu não preciso subir de novo à superfície, travestir-me de eremita e respirar do ar puro do topo da montanha. Eu posso amar a vida aqui embaixo. Eu preciso respirar desse ar e engasgar-me com as impurezas de uma existência desgastada. Eu devo colorir de vida esse abismo.

Dessa vez, passei muito tempo longe do blogue. Não é que a solidão tenha acabado, é que senti a necessidade de distanciar-me um pouco do meu pupilo. A vida não deixou brechas e estendeu o hiato. Pensei em abandoná-lo definitivamente. Mudei de ideia várias vezes.

A vivência trouxe alguns elementos novos e pôs para dormir muitos outros.

 

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4 opiniões sobre “Amálgama

  1. Nossa, tu escreve muito bem moça. Porquê nunca falasse do teu blog?

    Compartilho de cada entretinha do texto. Enfim, somos sobreviventes do abismo!

    Xero

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